Minha jumentice

Publicado: julho 29, 2019 em Uncategorized

Minha jumentice venceu. Está provado. Não ter estudado deu certo. Não foi preciso ler Kant, Lacan ou Candido. Paulo Freire é passado. Dedico meus neurônios à titica.

Ninguém é obrigado. Nem a entender de economia, nem de equações matemáticas, nem de crer que cadeirinhas salvam a vida das crianças. Ninguém é obrigado a preservar a vida dos próprios filhos. Por conseguinte, dane-se o meio ambiente. Ninguém gosta de meio ambiente. Ninguém gosta de pastar. Quero é carne bovina no meu freezer. Quero gerar ttica. Mais e mais.

Eu sou o prático, sou o técnico. Não preciso conhecer o mecanismo. Preciso apertar o botão. E vestir minha camiseta amarela. E falar o que está no evangelho.

Minha preguiça está no poder. Somos a força. Somos o velho jeito Homer Simpson de ver o mundo. Não sou intelectual. Mal sei a diferença entre aquecimento global e estações do ano. Por isso, quero alguém como eu no poder. Que me represente. Que entenda como enxergo o mundo. Não quero um intelectual me dando ordens. Não quero alguém que escreva corretamente o português ou que assim se expresse, ou então alguém que saiba ler ou racionar. Quero o simplório. Quero minha limitação governando.

Assim eu entendo o que se passa. Quando mais reto melhor. Quanto mais plano, mais eficaz. O ser humano não é complexo. É apenas um monte de carne. E titica. Somos carbono, uns em estado mais lapidado, eu menos. É assim que deus nos fez. Somos todos conges, kaftas.

Somos os coiso.

Na melhor das conjugações não concordantes. Digo não à Metamorfose, não a Crime e castigo, não a O processo. Preciso de alguém que simplifique. Que sirva o bife mal passado da literatura. Ninguém tem mais tempo ou paciência para Umberto Eco, para Morin, para Bauman. Quero o papo reto da coxinha frita antes que torrem meus miolos.

Minha jumentice venceu. Que fale agora quem passou trinta anos estudando. Quem dedicou a vida à ciência. Que fale agora quem perdeu tempo. Quem vê minha titica no mesmo patamar que sua ciência. Digo e repito, ciência de nada vale. Tem mais é que cortar verba, árvore e pulsos. Tem que derrubar casarão tombado. Quero pasto pro gado. Quero arranha céu. O mais alto do mundo. Quero chegar mais perto de deus. Quero meu pasto. Meu pasto verdinho. Alguém que fale sem pensar. Que governe sem pensar. Porque eu sou assim. E ser assim é ser autêntico.

Somos muitos jumentos. Somos milhões de amarelo. Vejo o twitter todos os dias. Leem pra mim lá no trabalho. O melhor meio de comunicação que existe. Em breve terei o meu. O meu próprio twitter pra dizer tudo que penso. Falta pouco. Logo terei o meu. Assim que eu aprender o que significam esses sinais no teclado.

 

 

 

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Meus Fuzis

Publicado: maio 31, 2019 em Uncategorized

Esse governo federal é tão costumeiro no ato do voltar atrás que possivelmente esse texto poderia já se tornar obsoleto antes mesmo que eu o termine de escrever. Por isso, decidi, ao invés de falar no governo, falar de meu vizinho.

Ninguém é obrigado a comprar arma, disse alguém do alto escalão do poder tupiniquim esses dias. Tá, pensei de imediato, não vou comprar, não sou obrigado, minha arma, minhas regras.

Um alívio em meio ao ar de desespero. Eu não seria obrigado a gastar trinta mil dinheiros na aquisição de um pedaço de metal que lança projéteis e mata pessoas.

Mas aí meu vizinho, que todo sábado à noite inala uma quantidade igual ou maior de farinha que minha tia Iva usa pra fazer macarrão na semana, poderá comprar seu fuzil.

Tudo bem, não sou obrigado. É só ficar em casa quietinho e tudo fica bem, pensei.

Mas aí meu vizinho, que todo sábado à noite inala uma quantidade igual ou maior de farinha que minha tia Iva usa pra fazer macarrão na semana e fica gritando pela janela de seu apartamento e acordando a rua inteira nas madrugadas de domingo, poderá comprar seu fuzil.

Mas eu não sou obrigado, foi alguém do alto escalão do governo tupiniquim que disse. Então tudo ficará bem lá em casa.

Mas aí meu vizinho, que todo sábado à noite inala uma quantidade igual ou maior de farinha que minha tia Iva usa pra fazer macarrão na semana e fica gritando pela janela de seu apartamento e acordando a rua inteira nas madrugadas de domingo e ouvindo funk com letras bem sugestivas que dá pra ouvir inclusive na rua de baixo, poderá comprar seu fuzil.

Contudo, madrugada de domingo é só uma vez por semana, pensei. E tem semana em que viajo, e tem madrugada de domingo em que nem estou casa, pensei.

Mas aí meu vizinho, que todo sábado à noite inala uma quantidade igual ou maior de farinha que minha tia Iva usa pra fazer macarrão na semana e fica gritando pela janela de seu apartamento e acordando a rua inteira nas madrugadas de domingo e ouvindo funk com letras bem sugestivas que dá pra ouvir inclusive na rua de baixo e que costumeiramente também sai pra calçada e fica saltando sobre os capôs dos carros estacionados no local, poderá comprar seu fuzil.

Tudo bem, eu não vou gastar trinta mil dinheiros nesse ferro.

Mas meu vizinho vai. Ele já disse que vai, já o ouvi batendo panela. E tem um adesivo bem grande na vidraça de sua sacada mostrando uma arma e a frase “Deus acima de todos”.

É de sabedoria popular que todo sábado à noite ele continuará inalando uma quantidade igual ou maior de farinha que minha tia Iva usa pra fazer macarrão na semana.

Ele continuará gritando pela janela de seu apartamento e acordando a rua inteira nas madrugadas de domingo.

E continuará ouvindo funk com letras bem sugestivas.

E vai saltar por sobre os capôs dos carros estacionados na rua.

E vai fazer tudo isso com um fuzil na mão.

Eu não sou obrigado a comprar. Ele também não. Mas ele vai comprar.

Acho que vou pedir para o relator dessa lei falar pro meu vizinho armado de fuzil não saltar sobre o capô dos carros, nem fazer tudo que ele faz nas madrugadas de domingo depois de inalar tudo que inala de cocaína.

Vou pedir para o pessoal do alto escalão do poder tupiniquim pedir por gentileza que meu vizinho se acalme.

Porque eu não vou. Não vou mesmo. De novo, não.

Eu não conhecia Marielle Franco. Pelo menos antes de ter visto o Plantão do Jornal da Globo que noticiava um atentado contra uma vereadora no centro do Rio.
Mas eu moro na distante e provinciana Porto Alegre. Eu vivo na pior bolha possível.
De toda forma, conheço um pouco da minha bolha. Conheço a Fernanda Melchiona, conheço a Ester Grossi, sei quem é Claudio Janta, embora eu preferisse não saber. Conheço os nomes da política da província, para o bem e para o mal.

Como estão vendo, sou uma péssima referência. Disso todos já estão fartos de saber.
Assim como devem estar fartos de saber que, quem mora no Rio, certamente deveria ter noção sobre quem era ou conhecer Marielle Franco. Quem é do meio político, tem elefantescas chances de ter cruzado com Marielle Franco, antes mesmo do Plantão do Jornal da Globo daquela noite de março de dois mil e dezoito.

Digo ainda que quem for do meio político e circula pelo Rio tem a obrigação de conhecer a vereadora. Se não conhece, ou mente ou é um pé de alface.

Eu queria pedir aqui infindos perdões aos pés de alface pela insensata comparação.

Todo pé de alface que se preze tem um ciclo. Germinar, crescer, virar salada ou virar semente.

Para nosso infortúnio, de norte a sul deste país, as alfaces, muitas disfarçadas de ervas daninhas, têm tomado o segundo caminho.

A semente que se prolifera no Maranhão, a semente que segue disseminando a linhagem na Bahia, as inúmeras e inúmeras sementes que pululam no Rio e, não contentes em arrasar um dos mais ricos Estados tupiniquins, agora estão arrasando o tupiniquim inteiro.

Eu confesso que tenho consumido menos alface ultimamente. Tenho preferido as rúculas, os espinafres, as azedinhas e os chuchus. Tudo pra ver se o mercado detém a produção de tanta semente. Mas vejo que meu poder de consumo é pouco menos que irrelevante.

Resta tentar saber um bocadinho a mais quem são os outros. Ou, talvez, um bocadinho a menos. Pois buscar a alienação, nestes dias, tem sido uma alternativa e tanto para a sobrevivência.

Egoístas

Publicado: fevereiro 1, 2019 em Uncategorized

Onde sento depois de sair do mar há uma mochila com toalhas e um livro do Tiago Germano, uma térmica com chimarrão, uma cuia com erva, um par de pés-de-pato e um snorkel, duas cadeiras e o pessoal do guarda-sol verde. Além do guarda-sol, eles também têm cadeiras da mesma cor, tudo combinandinho. E uma caixa de som. Uma maldita caixa de som. Não consigo ouvir as ondas quebrando na areia. Eu gosto de ouvir as ondas quebrando na areia. Por isso venho para essa porpeta praia. Mas não consigo.

O pessoal do guarda-sol e cadeiras combinandinhas brindam-me com uma seleção de funk a sertanejo universitário. Tudo de graça. Nem preciso pedir. Eles têm certeza que tanto eu quanto as outras pessoas que estão nessas areias porpetas, quanto os passarinhos, que até tentam fazer um contraponto, querem muito ouvir sua seleção musical. Olham pra gente esperando nossos sorrisos em forma de agradecimento.

Não é de conhecimento público quando o pessoal combinandinho surgiu por aqui. É assim mesmo, dizem os anciãos. Sempre será assim.

Depois de um longo período de reflexão e respiração ayurvédica, decidi me dirigir aos dêjotas. Eu queria agradecer. Muito obrigado, queria dizer. Mas eles não precisariam mais se preocupar. Já estávamos satisfeitos de músicas por hoje.

O fato é que, a meio do caminho, ouço uma salva de palmas. Fato estranho para uma praia àquela hora, ainda mais enquanto eu estava no meio do caminho para mais uma atitude estúpida.

As palmas duravam cerca de dois segundos e sessavam, repetindo-se a seguir. Voltei ao meu ninho composto por uma mochila com toalhas e um livro do Tiago Germano, uma térmica com chimarrão, uma cuia com erva, um par de pés-de-pato, um snorkel e duas cadeiras. Juntei-me ao coro de palmas que se estendia areia afora.

Um minuto depois, eu estava ouvindo as ondas quebrarem na areia. Ouvi também um passarinho cantando, depois outro respondendo.

Em seguida chegou um terceiro e começaram a bater bico. É relaxante escutar passarinhos discutindo histericamente.

Após a entusiasmada manifestação, o pessoal do guarda-sol verde decidiu não mais dividir suas preciosidades com a gente. Guardaram os funks e sertanejos universitários só pra si, em volume que foi baixando, baixando, até ficar mais baixo que a voz dos passarinhos.

Não demorou muito para fecharem o guarda-sol verde e as cadeiras verdes, tudo combinandinho. Juntaram tudo e saíram, sob uma nova salva de palmas. Nem sequer pediram meu e-mail para mandaram o set list.

Egoístas.

Dois jacus depenados

Publicado: janeiro 15, 2019 em Uncategorized

A história é sempre a mesma. Inicialmente reúnem-se dois, três, quatro homens de bem. Depois colocam as armas, três ou quatro espingardas, cinco cachorros treinados, redes pesca num carro grande ou camionete. Depois dizem que não sabem que horas voltarão.

A lógica mostra que sempre voltam. Dois, três, quatro homens de bem. Três ou quatro espingardas, cinco cachorros treinados que depois de velhos serão abandonados na mata, redes de pesca. Um tatu com algumas formigas a entrar e sair pela boca. Uma lebre com marca de tiro no pescoço e sem parte da cabeça. Outra lebre sem a parte traseira com sinal de mordidas de cães. Um veado. Sim, um veado já esquartejado e acondicionado em uma caixa de plástico. Treze traíras, nove bagres machos, quatro bagres cheios de ovas, um ratão do banhado. Dois jacus depenados.

E nenhum fiscal do IBAMA.

E nenhuma barreira nas estradas.

A história é sempre a mesma. Repete-se na maioria das rodovias vicinais. Inicialmente, ninguém tem porte de arma, nenhuma arma tem registro. E nenhum envolvido é notificado.

É só perguntar nas calçadas. Todos terão boas histórias de caçador pra contar. É só bater nas portas. Todos terão uma, ou duas, ou mais armas e munições. É só abrir o freezer. O estoque de animais silvestres é superior ao das matas vizinhas.

E nenhum fiscal do IBAMA.

A história é sempre a mesma. Onde há falta de consciência, deveria haver excesso de fiscalização. Mas parece que por aqui todos andam de mãos dadas. Menos os tatus, as lebres, os veados, as seriemas, os jacus, os bagres cujo único destino é o freezer de quem apenas quer se divertir nos finais de semana dando uns tiros em tatus, lebres, veados, seriemas, jacus e tudo que se mover em frente. Espero que nem eu e nem você se mexa enquanto esses partifórios estejam andando por aí. Talvez seja melhor parar de frequentar locais ao ar livre, ou deixar de aproveitar a natureza. Primeiro, porque em breve não haverá animal nenhum para observar. Segundo, porque poderemos ser o alvo da vez. Quiçá devamos ficar em casa. Ou, então, passar a denunciar.

 

 

Dois mil e dezoito

Publicado: dezembro 26, 2018 em Uncategorized

Dois mil e dezoito foi um ano, digamos, especial. Entenda-se nesse caso que o especial sempre tem dois lados. Então, nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. Mas, por que estou dizendo então especial?

Poderia dizer que foi um ano de extremos. Mas não quero usar esse termo. Extremo será, certamente, uma boa definição para o ano que está por vir. Como sou precavido, vou guardar a expressão pra crônica de dezembro de dois mil e dezenove.

O lado do especial desse ano que me agrada veio meio que em conjunto. Pessoalmente, foi um bom período.

Lancei o livro “Caixa de guardar vontades”. A propósito, quem ainda não tem, recomendo que compre.

Recebi o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura pelo livro “Domanda Nisio”. Esse vocês poderão comprar no ano que vem, tudo a seu tempo.

Vi um show do Roger Waters pela quinta vez.

Pronto, isso já credita dois mil e dezoito no hall of fame dos bons anos.

Contudo, esse ano que acaba também teve seu lado sombrio que temo não acabar tão cedo.

Se no lado pessoal as coisas vão bem, no político pairam dúvidas. E temores.

Temo que, enquanto tupiniquins, cometemos um dos maiores falhaços da história de nossa curta democracia.

Por enquanto, são apenas temores. Apenas fumacinhas.

Mas essa fumaça que sinaliza acabar com o Ministério do Trabalho, essa fumaça que sinaliza acabar como Ministério da Cultura, essa fumaça que sinaliza cortar com os investimentos do Sesc pode queimar muito mais que nossos neurônios.

Mas a fumaça que mais me traz temores vem do agonizante meio ambiente. É nesse ponto que, por um lado, percebe-se o senhor futuro ministro do Meio Ambiente parecendo ter o mesmo nível intelectual que uma tapioca, sem ofender as tapiocas que sabem a diferença entre infraestrutura e meio ambiente. Por outro, percebe-se ali um sujeito maquiavélico, louco pra fazer maldades. Estou aqui pensando se espero para rir das pataquadas ou espero pelo Tarzan, que aparecerá montado num tamanduá-bandeira, seguido por micos-leões e formigas de todas as espécies. Eles invadem a Esplanada, libertam o povo da tirania e salvam o mundo do temor pré-anunciado.

Falando em temores, o que mais temíamos andou esquecido nos últimos meses. Mas ele reapareceu. Fazendo o mesmo. E eu sinceramente não entendo por que diabos o senhor Temer mexe tanto as mãos enquanto fala. O maior problema, no entanto, é que as mãos se movimentam num ritmo totalmente diferente ao da voz, criando um descompasso ridículo. Ao final, a única coisa condizente: nem a voz e nem as mãos falam um pingo de verdade.

Dois mil e dezoito foi realmente um ano especial. O ano da fumaça. Cada um com as suas. E todas se juntando no final. Esperamos que, no ano novo, os bombeiros sejam resistentes.

 

Quero asfalto

Publicado: dezembro 5, 2018 em Uncategorized

Quero asfalto. O chão lisinho para deslizar com o carro. Cimento, pedra e evolução. Quero asfalto.

A minha cidade é o centro do umbigo do universo. Não precisamos saber como é planejada Roma, Lisboa ou Paris. A gente é que sabe. A gente não precisa de livros, de história, de patrimônio cultural, de conhecimento ou de memória tombada ou simbólica. A gente quer é asfalto.

Quero porque quero. Trezentos metros de chão mais lisinho que o piso da minha sala. Trezentos metros para minha caminhonete andar macia.

Eu sou o futuro. Vejo no horizonte prédios envidraçados que tocam no céu e que nem Deus consegue derrubar. Não me importo se antes havia um casarão de madeira construído pelos imigrantes. Não me importo se o casarão contava um pouco, ou um muito da história. Quem quer nostalgia que vá para o museu. Não temos museu. Então quem quiser que puxe da memória. Ou desenhe. Quero é que o casarão tombado pegue fogo. Para na semana seguinte colocar a pedra fundamental. Do prédio. Que toca o céu.

Meu principal divertimento é deslizar com o carro. No piso lisinho. Não tenho livros em casa. Não lembro quando li o último.

Sou o futuro.

Ganho dinheiro pra comprar carro, gasolina, pedra e cimento. Por isso quero asfalto.

Posso doar recursos para a obra. Quero doar areia, brita, mão de obra. Para a biblioteca não doarei nada. Ninguém frequenta bibliotecas. Cultura é coisa de comunista. Sou patriota, quero asfalto.

Parabéns a quem teve a ideia. É assim que progredimos. Parabéns a quem conferiu a licitação. Parabéns às empresas que não formaram cartel. Sou a favor de tudo que torna a cidade mais cinza.

Pra nostalgia há os museus, há as fotografias. Queremos é deslizar lisinho.

Não importa se Roma retirou o asfalto para deixar a cidade com o aspecto mais original possível. Não importa se Paris retirou o asfalto para deixar as pedras mais originais possíveis aparecerem. Não importa se a Baixa de Lisboa tem pedras de mais de 500 anos visíveis e pisáveis. Não importa se é retirando o asfalto que São Paulo, Rio de Janeiro, Olinda, Porto Alegre e São Luiz do Maranhão revitalizam e humanizam suas áreas urbanas centrais. Eu quero é deslizar lisinho com minha caminhonete. Não gosto de ler. Deslizar lisinho é meu divertimento.

Asfalto é maravilha. Posso ficar olhando construírem a obra. Depois colocar uma cadeira na calçada e admirar os carros passando. Tão bom olhar carros passando. Respirar combustível fóssil. Pouco importa se o Primeiro Mundo investe em espaços humanos. Quero é espaço para carros. O Primeiro Mundo de nada sabe. Minha cidade que não tem livraria é que sabe viver.

É só ligar a chave.

Minha caminhonete tem direção elétrica. Motor elétrico. Cinto de segurança elétrico.

Desliza lisinho.

Sou tão inteligente que não preciso de passado, de história, de patrimônio cultural e simbólico. O que preciso é de um latão de skol e de um asfalto no centro da cidade para ser feliz.

Eu sou o futuro. Quero asfalto. Vou inclusive mandar instalar um em minha horta. Para comer alfaces limpinhas e lisinhas. Quem sabe eu as colha a bordo de minha caminhonete, sem precisar colocar os pés no chão. Vocês podem fazer o mesmo. Fica a dica.